sexta-feira, 21 de abril de 2017

O Dia Que Me Revelei – Primeiro Ato.

     Tudo andava bem, as questões relacionadas ao dia a dia colocadas no bom rumo, dinheiro não tinha nem faltava era suficiente para manter minha família agora acrescida de um filho e de uma casa em construção, na voz do povo algo tipo tudo nos conformes, o amor de uma mulher, a alegre beleza de curtir o primeiro filho, o lado profissional impulsionado por um vento favorável, amigos na medida do necessário tanto na família como na militância política e também no ambiente de trabalho, porém o pavio estava acesso e eu tinha consciência deste fato apesar de mantê-lo escondido de todos inclusive de mim mesmo.

     Sábado encontro da turma para fazer fundos para a campanha do nosso grupo político pertencente a ala mais à esquerda dentro do movimento trabalhista, feijoada feita no capricho, temperada com a discussão da estratégia política contra a ditadura agonizante e acompanhada das bem vindas caipirinhas e cervejas.

     Construí meu modo de ser dentro da camisa de força de uma família tradicional, catolicismo importado da Europa na vivência dos meus antepassados, genética germânica com sua inevitável carga de disciplina, organização e privilégios inegáveis. Riqueza? Não, uma vida simples de classe média baixa, frequentando colégio de religiosos por conta de sacrifícios financeiros, alimentação adequada somada à dedicação completa dos pais ao núcleo familiar, o diferencial parecia ser a potência do pensar crítico a empurrar-me sistemática e continuadamente na busca de romper esse círculo de proteção.

     Tudo andando nos conformes meu filho na casa dos meus pais, minha mulher que não gostava de política no trabalho, e eu a caminho daquele ambiente de discussão e diversão, espaço de resistência que eu não conseguia abrir mão em tempos de autoritarismo.

     E meu filho, eu tinha um menino nenê ainda, era sábado não havia outra opção do que estar na segurança da companhia dos meus pais, não teria como lembrar qual de nós dois eu ou minha mulher o tínhamos deixado lá, mas trazia-me a segurança de estar em lugar bem protegido, amado com certeza tornava desnecessária minha preocupação com ele, quanto a minha mulher tinha saído para trabalhar, sabia que ela voltaria no fim da tarde, confesso para mim não tinha nenhuma importância o que ela faria este era um problema que eu catalogava como de alçada tão somente dela.

     Lá pelas tantas meu foco estava em uma companhia muito agradável, alguém que agora nem lembro o nome, ela estava muito acima de uma nominação, era a cada instante mais tudo o que eu queria e eu por certo não fugiria.  

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