sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Família suas Garras Fortes

     Talvez quem me acompanhe de perto estranhe meu depoimento que desacredita a instituição família quando me vê frequentemente acompanhado de um ou mais dos meus quatro filhos, frutos benditos de minhas duas longas experiências familiares, ou ainda de minhas irmãs e sobrinhos consequência direta ou indireta da família originada por meus pais, é fato frequentemente repetido o usufruir juntos de um café expresso ou sitiar uma mesa de cerveja em um simples bar sempre repartindo em igualdade a opinião, a filosofia e a vida, não tão eventualmente me encontre também acompanhado deles a percorrer a feira orgânica do Bom Fim na nossa cidade de Porto Alegre, partilhando momentos nas nossas especiais salas de cinema a celebrar filmes e não raro lermos e ouvirmos poesia juntos em um sarau, sim desde que me conheço por gente estive envolvido em família inicialmente na gerada por meus pais e em continuação nas que me candidatei a construir.      

     Através da personagem criança, Betinha (Cristina Pereira), a diretora Ana Carolina em seu primeiro filme de ficção “Mar de Rosas” (1977), que pude assistir em meados de 2016 graças à programação da Sala Redenção, película dirigida nos anos setenta que oportuniza discutir a questão família, um filme bem a cara da década na qual ela o concebeu e dirigiu, apresenta seus personagens em constante movimento refletindo a característica da sociedade daqueles tempos, a ideia de buscar repensar o homem e sua relação com a comunidade está fortemente presente, em especial naquele Brasil recheado de autoritarismo com uma crescente contestação popular interna contra a sua prática.

     Muito de meu agrado é a análise, como foi proposta pela diretora, da relação entre as instituições família e estado, acredito que a primeira, o núcleo familiar, na prática funciona como campo de provas para os futuros comportamentos no da segunda, a organização nacional, sendo a família um legítimo estado em miniatura com todos os seus problemas e soluções, muito embora ainda estivéssemos em tempos de censura, impedimento claro para referenciar diretamente o autoritarismo do governo, as situações e estruturas que envolvem os viajantes de maneira implícita denunciam este fato, podemos até falar em uma premonição desta desestruturação que hoje vemos de toda a organização social em nossa terra e no mundo, o poder exercido em sua crueza e violência.

     Estarei imaginando coisas quando vejo dentro das casas a violência escancarada do mais forte tanto no aspecto físico como no econômico a exercer a posse continuada das outras personagens do lar como fonte de ensino do autoritarismo, quando enxergo nestes mesmos espaços o achatamento das minorias começando pelas mulheres e seguindo com os membros que fugiram da escolha padrão de gênero uma verdadeira aula de discriminação, eu penso que não, construímos um arcabouço moral exatamente e premeditadamente para utilizar a instituição familiar como fonte renovada de um exército de mão de obra para manter a sociedade injusta que temos, urge repensar a família como ponto de partida para uma nova humanidade. 

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