sábado, 6 de agosto de 2016

Reflexos da Natureza Humana Violentada.

     Na Sala Redenção, neste início de agosto, o meu primeiro encontro com a diretora Claire Denis no seu filme Noites sem Dormir (J'ai pas Sommeil, França, 1993, 110 min), posso resumir como gratificante assistir sua reflexão forte sobre o homem migrante. Por sinal, tema de grande atualidade e importância no debate atual global da humanidade, película que não tem a pretensão de oferecer respostas e sim mostrar algumas das diferentes peças que compõe este quebra cabeças de difícil solução, possibilita-nos navegar por caminhos diversos na análise do problema e possível encontro de soluções.

     Os guetos, como consequência resultante da incomunicabilidade, mostram-se distribuídos por todo o filme. Migrantes do leste europeu, migrantes da África, seu isolamento social, suas dificuldades econômicas, sua vida em pequenos grupos e as diversas opções individuais frente à injusta exploração da sociedade, sua vulnerabilidade social, tudo isto nos é jogado na cara de maneira singela real, crua e sem disfarce.

     Nestas ilhas humanas os relacionamentos internos são ambientados no saudável carinho, compartilhando a alegria do convívio através de intermináveis gestos de ajuda mútuos, sempre limitados pela situação econômica a que estão sujeitos, incapazes de abrir seus dilemas pessoais ao grupo. Vivem a solidariedade sem afastarem os fantasmas internos que os amedrontam, vemos então que só há alguma alegria em seus pequenos grupos de mais chegados, todo o entorno social fora destes são relações sombrias com o mundo.

     Um dos protagonistas, o irmão mais velho, negro violinista, dedica-se a montar móveis como trabalhador ilegal para seu sustento, mergulhado na solidão só quebrada pelo dia a dia vivido com o filho pequeno e o contínuo acalento do seu sonho de ir viver na natureza da África uma vida simplória com a mulher, o filho amado, a terra banhada pelo mar e seus frutos que por sinal o separa dos sonhos da mulher branca presa à necessidade da Paris cidade.

     O outro protagonista, seu irmão mais novo, é gay cantor-dançarino de casa noturna focada no público de sua opção de gênero, involuntariamente enquadra-se simultaneamente em diversos guetos: no dos imigrantes, no dos homossexuais, no dos negros, no dos artistas da noite dita marginal e no principal deles, que é o dos pobres. Sua personalidade multifacetada ora é o ser carinhoso da sua relação familiar, ora é o individuo de relação apaixonada e conflitante com o namorado, ora cumpre o papel de amistoso relacionamento com a vizinhança e finalmente o do seu ganha-pão: assassinato em série de velhinhas com finalidade de roubo, o que faz com uma naturalidade impressionante desprovida de qualquer emoção.


     Uma loira jovem bonita, sozinha, vinda da Lituânia para Paris por uma promessa profissional feita na sua terra por um parisiense sedutor do primeiro escalão que agora a adia para um futuro amanhã inexistente, como Judas, ela denuncia para a polícia o jovem e saqueia o dinheiro por ele roubado e segue seu caminho. O filme envolveu-me por inteiro e convida para posterior reflexão mesmo sendo uma situação de difícil entendimento pela dificuldade de nos colocarmos no lugar dos migrantes. 

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