Na Sala Redenção, neste
início de agosto, o meu primeiro encontro com a diretora Claire Denis no seu
filme Noites sem Dormir (J'ai pas Sommeil, França, 1993, 110 min), posso resumir
como gratificante assistir sua reflexão forte sobre o homem migrante. Por sinal,
tema de grande atualidade e importância no debate atual global da humanidade,
película que não tem a pretensão de oferecer respostas e sim mostrar algumas
das diferentes peças que compõe este quebra cabeças de difícil solução,
possibilita-nos navegar por caminhos diversos na análise do problema e possível
encontro de soluções.
Os guetos, como
consequência resultante da incomunicabilidade, mostram-se distribuídos por todo
o filme. Migrantes do leste europeu, migrantes da África, seu isolamento
social, suas dificuldades econômicas, sua vida em pequenos grupos e as diversas
opções individuais frente à injusta exploração da sociedade, sua
vulnerabilidade social, tudo isto nos é jogado na cara de maneira singela real,
crua e sem disfarce.
Nestas ilhas humanas os
relacionamentos internos são ambientados no saudável carinho, compartilhando a
alegria do convívio através de intermináveis gestos de ajuda mútuos, sempre
limitados pela situação econômica a que estão sujeitos, incapazes de abrir seus
dilemas pessoais ao grupo. Vivem a solidariedade sem afastarem os fantasmas
internos que os amedrontam, vemos então que só há alguma alegria em seus
pequenos grupos de mais chegados, todo o entorno social fora destes são
relações sombrias com o mundo.
Um dos protagonistas, o
irmão mais velho, negro violinista, dedica-se a montar móveis como trabalhador
ilegal para seu sustento, mergulhado na solidão só quebrada pelo dia a dia
vivido com o filho pequeno e o contínuo acalento do seu sonho de ir viver na
natureza da África uma vida simplória com a mulher, o filho amado, a terra
banhada pelo mar e seus frutos que por sinal o separa dos sonhos da mulher
branca presa à necessidade da Paris cidade.
O outro protagonista,
seu irmão mais novo, é gay cantor-dançarino de casa noturna focada no público
de sua opção de gênero, involuntariamente enquadra-se simultaneamente em diversos
guetos: no dos imigrantes, no dos homossexuais, no dos negros, no dos artistas
da noite dita marginal e no principal deles, que é o dos pobres. Sua
personalidade multifacetada ora é o ser carinhoso da sua relação familiar, ora
é o individuo de relação apaixonada e conflitante com o namorado, ora cumpre o
papel de amistoso relacionamento com a vizinhança e finalmente o do seu ganha-pão:
assassinato em série de velhinhas com finalidade de roubo, o que faz com uma
naturalidade impressionante desprovida de qualquer emoção.
Uma loira jovem bonita,
sozinha, vinda da Lituânia para Paris por uma promessa profissional feita na sua
terra por um parisiense sedutor do primeiro escalão que agora a adia para um
futuro amanhã inexistente, como Judas, ela denuncia para a polícia o jovem e
saqueia o dinheiro por ele roubado e segue seu caminho. O filme envolveu-me por
inteiro e convida para posterior reflexão mesmo sendo uma situação de difícil
entendimento pela dificuldade de nos colocarmos no lugar dos migrantes.
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