domingo, 7 de agosto de 2016

O Caminhante, na Escadaria da Obsolescência.

     Ele conhecia bem os degraus por quais já tinha passado intuía como seriam os que viriam a desafiá-lo no porvir, consciente que carregava consigo esta máquina espetacular física mental na escadaria da obsolescência, a famosa fadiga dos metais é algo do qual o ser humano não está desobrigado a experimentar, é assim que somos destinados a voltar a ser terra neste ciclo orgânico finito romanticamente imaginado como sem fim.

     O que era independia dessas considerações apesar de ignorar completamente a composição e finalidade desta sua parte definidora sabia-o bem que partia dela instigá-lo a medir-se consigo mesmo no tempo, avaliando as mudanças no corpo e na mente com os quais tinha grande parceria, seduzia-o o fato de que cada vez tinha mais tempo para dedicar-se a esse rito, quanto menos qualidade da matéria mais realista apresentava-se a hipótese de descortinar esse eu sou, parecia-lhe que os pensamentos e sentidos do vigoroso corpo o afastavam de desvendar o mistério que era. 

     Velho de corpo e espírito é assim que se definia e se sentia bem com isso, apesar de entender perfeitamente porque preconceituosamente lhe classificavam com frases delicadas tipo da terceira idade ou do melhor tempo ou ainda jovem de espírito, nada mais são que reflexos do estágio da humanidade onde se cultua a juventude como ideal a ser alcançado por seu melhor encaixe na sociedade de consumo que necessita de força e velocidade irrefletida de preferência.

     Como velho reserva-se o direito e obrigação consigo mesmo de relacionamentos livres onde possa conviver com diálogos de terceiros tão somente quando o são similares aos que interiormente pratica, carregados de questionamentos para encontrar descobertas, repletos de incertezas de quem sabe que a verdade é uma utopia a ser aproximada e principalmente isentos do vazio das palavras reproduzidas em série pelos mecanismos de persuasão hoje desenvolvidos.

     Não lhe assusta ser classificado de politicamente incorreto, seu compromisso a cada dia que passa é consigo mesmo, assalta-o a ideia de relações que só aconteçam quando e pelo tempo do desejo dos envolvidos, sem abrir mão de nunca ser indelicado reserva-se a decisão de só falar a ouvidos que querem ouvi-lo e escutar a todos evitando contestá-los apesar de nunca endossar as falsas verdades aquelas que claramente não são consequências do livre pensar do interlocutor e sim uma mecânica reprodução de palavras espalhadas ao vento.    


     O tempo lhe é precioso, dedica-o a considerar-se com atenção e observar os outros em si assim nessa sina de caminhante atinge a vivência do prazer que no fundo é a inspiração que lhe motiva a assumir o que é sabedor que só por ser velho o pode fazê-lo. 

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