Ele conhecia bem
os degraus por quais já tinha passado intuía como seriam os que viriam a desafiá-lo
no porvir, consciente que carregava consigo esta máquina espetacular física mental
na escadaria da obsolescência, a famosa fadiga dos metais é algo do qual o ser
humano não está desobrigado a experimentar, é assim que somos destinados a
voltar a ser terra neste ciclo orgânico finito romanticamente imaginado como
sem fim.
O que era
independia dessas considerações apesar de ignorar completamente a composição e
finalidade desta sua parte definidora sabia-o bem que partia dela instigá-lo a
medir-se consigo mesmo no tempo, avaliando as mudanças no corpo e na mente com
os quais tinha grande parceria, seduzia-o o fato de que cada vez tinha mais
tempo para dedicar-se a esse rito, quanto menos qualidade da matéria mais realista
apresentava-se a hipótese de descortinar esse eu sou, parecia-lhe que os
pensamentos e sentidos do vigoroso corpo o afastavam de desvendar o mistério
que era.
Velho de corpo e
espírito é assim que se definia e se sentia bem com isso, apesar de entender
perfeitamente porque preconceituosamente lhe classificavam com frases delicadas
tipo da terceira idade ou do melhor tempo ou ainda jovem de espírito, nada mais
são que reflexos do estágio da humanidade onde se cultua a juventude como ideal
a ser alcançado por seu melhor encaixe na sociedade de consumo que necessita de
força e velocidade irrefletida de preferência.
Como velho
reserva-se o direito e obrigação consigo mesmo de relacionamentos livres onde
possa conviver com diálogos de terceiros tão somente quando o são similares aos
que interiormente pratica, carregados de questionamentos para encontrar descobertas,
repletos de incertezas de quem sabe que a verdade é uma utopia a ser aproximada
e principalmente isentos do vazio das palavras reproduzidas em série pelos
mecanismos de persuasão hoje desenvolvidos.
Não lhe assusta
ser classificado de politicamente incorreto, seu compromisso a cada dia que
passa é consigo mesmo, assalta-o a ideia de relações que só aconteçam quando e
pelo tempo do desejo dos envolvidos, sem abrir mão de nunca ser indelicado
reserva-se a decisão de só falar a ouvidos que querem ouvi-lo e escutar a todos
evitando contestá-los apesar de nunca endossar as falsas verdades aquelas que
claramente não são consequências do livre pensar do interlocutor e sim uma
mecânica reprodução de palavras espalhadas ao vento.
O tempo lhe é precioso,
dedica-o a considerar-se com atenção e observar os outros em si assim nessa sina
de caminhante atinge a vivência do prazer que no fundo é a inspiração que lhe
motiva a assumir o que é sabedor que só por ser velho o pode fazê-lo.
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