Ressalvando o
fato de que tudo pode não passar de um particular desejo ardente, um sonho por
mim acalentado, de alguém que se assume como um incurável otimista o que não se
mostra suficiente para me afastar da ideia de que os dias da ilusão estão
contados, no horizonte vejo o ocaso da ilusão que transparece como reflexo nos
rostos dos que compartilham espaço comigo na sociedade.
Esta fábrica de
desejos invenção da humanidade cresceu, encorpou e por seu próprio excesso
produtivo está prestes a desacreditar-se, estampa-se o cansaço em quase todos
que me cercam pela sensação frustrante de fugacidade do prazer instantâneo, vem-me
a imagem de um isqueiro descartável vazio de seu gás que ao seu manuseio
responde com faíscas inúteis por sua esterilidade.
O bom vento anunciando
o fim da manipulação do homem pela semeadura de anseios artificiais contém em
seu ventre notícia alvissareira de uma forte avaria ao jogo do poder, esse jogo
multifacetado complexo que insiste em nos iludir através de alvos que são
apenas suas pobres representações tem na manipulação do desejo seu mais forte
aliado.
Em nosso papel de
Dom Quixote ao apontarmos nossas armas contra legítimas caricaturas de poder que
por falsas ao enfrentar nosso combate esfumaçam-se no ar, trazendo-nos a
sensação equivocada de vitória quando de fato em nada afetam o poder
propriamente dito e tornam esta guerra interminável por consequência.
O poder não mais
se necessita de obrigações e proibições é mais simples criar desejos e apontar
os caminhos para satisfazê-los, trabalhar o controle social pelo despertar do
anseio adequado ao correspondente comportamento esperado, esmiúça-se todos os
gestos todos os movimentos e instigamos via estímulos adequados oferecendo-os
ao custo de posicionamento social monitorado, assim se exercem poder não em
nome de alguém e sim em nome de um anônimo interesse global, enquanto isso nos
outros brincamos de nações e suas instituições, de eleições e seus partidos
políticos, de renda e sua distribuição desigual, de educação e sua camisa de
força, enfim de privilégio de eleitos do momento.
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