domingo, 22 de janeiro de 2023

Atropelado por seu Próprio Texto.

                Ele tinha clara noção, percebia que os vários textos se digladiavam em seus pensamentos, estavam constantemente escrevendo-se e rescrevendo-se e tentando impor-se a sua atenção, lhe era difícil manter o foco, ora um ora outro se impunha, apesar de completos sempre estavam por reescrever-se.

 

                Não é que em um repente ele se sentiu jogado contra o teclado, sim atropelado por um de seus textos, estava já logado pronto para seus dedos dançarem nas teclas, o tal do texto queria impor-se no papel digital, sentindo-se vitorioso, o tal texto, já se via transcrito para o meio digital.

 

                Envolvido nesta obrigação lhe venho a lembrança umas três ou quatro noites que dias atrás tinha vivido repetidamente  uma experiência singular, em sonhos em um dormitar leve, nem bem dormindo nem acordado, via-se lendo palavra após palavra, linha após linha de um livro já escrito, mas tinha consciência no próprio sonho que o mesmo nunca tinha sido escrito e que portanto era obra sua, estava perplexo com esta experiência de simultaneamente escrever e ler seu próprio livro.

 

                Já pelo paragrafo anterior percebemos que a tal vitória do texto, era uma vitória de Pirro, pois depois que nosso personagem está brincando com os teclados nem o titulo do texto está garantido, quando ele passa a por no papel as palavras sempre um novo texto é escrito e reescrito.

 

                Não que os textos anteriores e suas várias versões morram, eles coexistem eternamente no paraíso do pensamento humano, um texto tem tantos eu quanto o seu autor, que por sinal usa esta designação ‘autor’ equivocadamente pois na verdade sua tarefa é de descobridor, os textos em suas milhares de combinações já existem desde sempre.

 

                Como já disseram por aí, todos escrevemos sempre o mesmo livro, por mais que haja diversidade de conteúdos, de palavras, de frases, são sempre a projeção do nosso viver, vivemos esta multiplicidade de espirito que mostra-se em suas várias facetas definindo um mesmo ser.

 

                Não pense que isso aconteça só com o escritor, o mesmo ocorre com leitor, cada releitura de um livro é na verdade outro livro pois o lemos com os filtros todos do atual momento interior e como sabemos não são os mesmos.

 

                Bom está feito, paro por aqui para fixar um momento, pois se assim não o faço será outro o texto que vereis.               


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