terça-feira, 1 de maio de 2018

Desarmado, de Peito Aberto.

     Morrer é por certo um exercício diário, todas as relações nos jogam ao encontro da morte do nosso orgulho, da extinção da nossa vaidade, destruição da nossa falsa sapiência, sempre caminhamos sem destino, o traçado de nossos passos temos que escrever momento a momento com a paixão que resume a nossa própria vida e particular morte.

     Morrer é por certo a fusão plena no outro no epicentro do furacão carnal, envolvidos em todos os tatos que nos arrepiam, embriagados dos vários cheiros que nos tonteiam, transbordados dos paladares que nos enchem a boca, transmutados por visões que nos perpassam e absortos dos ruídos que nos enlevam, onde nós deixamos de ser unos e distintos para explodirmos no momento em uma nova criatura onipresente.

     Morrer é por certo embebermo-nos dos pensamentos universais sintetizarmos em nós todos os romances já vividos na realidade da ficção, rimarmos no diapasão de todas as poesias por serem ou já escritas cuja sopa de letras simboliza os sentimentos que as compõe, sofrer n’alma as tristezas e alegrias do existir onde sempre seremos a síntese perfeita da humanidade.

     Morrer é por certo a construção permanente da utopia que nasceu desde sempre na nossa comunhão com todos os seres humanos os que deixaram e os que ainda terão seus passos gravados na natureza, sim esta que nos acolhe e cuja parceria nos impele para a transcendência a nos libertar do tempo em uma filosofia universal.

    Morrer é por certo vasculhar suas próprias entranhas, corpo e espírito, na busca eterna do conhecer-se o suficiente para amar-se acima de todas as coisas, e assim o sendo, esparramar como dádiva universal este amor sobre todos os seres vivos animados e inanimados na harmonia de um único corpo místico que compomos por destino.

     Morrer é por certo engajar-se por inteiro na guerrilha santa pela paz universal, combater com furor todas as guerras entre povos, todas as desavenças entre pessoas, todos os interesses pessoais de exploração e poder entre nós outros, buscando nós juntos a caminhada dos libertos que são iguais entre si nas diferenças.

     Morrer é por certo a vocação maior e insistente do ser humano em realizar-se como prazer e felicidade na contradição do nunca precisar e sempre viver no outro, desarmado de peito aberto e que assim o seja para todo o sempre.           

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